domingo, 22 de dezembro de 2013

Anjos e demônios, segundo o Espiritismo


  128- Os seres que chamamos de anjos, arcanjos e serafins formam uma categoria especial de natureza diferente das de outros espíritos?

- Não; esses são os espíritos puros; os que se acham no mais alto grau da escala e reúnem todas as perfeições.

  A palavra ANJO revela, geralmente, a ideia da perfeição moral; entretanto, se aplica, frequentemente, a todos os seres bons e maus que estão fora da humanidade. Diz-se: o bom ou mau anjo, o anjo da luz e o anjo das trevas. Nesse caso, é sinônimo de Espírito ou de Gênio. Nós a tomamos aqui na sua boa acepção.

129- Os anjos percorreram todos os degraus da escala?

- Percorreram todos os degraus mas, como já dissemos, alguns aceitaram suas missões sem murmurar e chegaram mais depressa; outros, gastaram um tempo mais longo para alcançarem a perfeição.

130- Se a opinião que admite seres criados perfeitos é errônea, como se explica que essa crença esteja na tradição de quase todos os povos?

- Fique sabendo que teu mundo não existe de toda a eternidade e que, muito antes que ele existisse, já havia espíritos que tinham atingido o grau supremo. Os homens acreditam que eles foram sempre assim.

131- Há demônios, no sentido que se dá a palavra?

- Se houvessem demônios, eles seriam obras de Deus, e Deus seria bom e justo se houvesse criado seres eternamente devotados ao mal e infelizes? Se há demônios, eles habitam em teu mundo inferior e em outros semelhantes. São esses homens hipócritas que fazem de um Deus justo, um Deus mau e vingativo e creem lhe serem agradáveis pelas abominações que cometem em seu nome.

   A palavra demônio não implica na ideia de espírito mau senão no seu significado moderno, porque a palavra grega daimôn, da qual se origina, significa gênio, inteligência, e se emprega para designar os seres incorpóreos, bons ou maus, sem distinção.
    Por demônios, segundo o significado vulgar da palavra, se entendem seres essencialmente malfazejos.  Seriam, como todas as coisas, criação de Deus. Ora, Deus que é soberanamente justo e bom, não pode ter criado seres predispostos ao mal por sua natureza, e condenados por toda a eternidade. Se não são obras de Deus, seriam, pois, como ele, de toda a eternidade, ou então haveria várias outras potências soberanas.
   A primeira condição de toda doutrina é de ter lógica. Ora, a dos demônios em seu sentido absoluto, peca por essa base essencial.
   Compreende-se que na crença dos povos atrasados, que não conheciam os atributos de Deus, fossem admitidas as entidades malfazejas, como também os demônios, mas é lógico e contraditório para aqueles que fazem da bondade de Deus um atributo por excelência, supor que ele possa ter criado seres devotados ao mal e destinados a praticá-lo perpetuamente, pois isso nega a sua bondade. Os partidários da doutrina dos demônios se apoiam nas palavras do Cristo. Não seremos nós quem conteste a autoridade dos seus ensinamentos, pois os desejamos ver mais no coração que na boca dos homens. Mas estarão bem certos do sentido que ele dava à palavra demônio? Não se sabe que a forma alegórica era um dos caracteres da sua linguagem? Tudo o que o evangelho tem deve ser tomado ao pé da letra? Não precisamos de outra outra prova além desta passagem:
 "Logo, após estes dias de aflição, o Sol obscurecerá e a Lua não derramará mais a sua luz, as estrelas cairão do céu e as potências celestes serão abaladas. Digo-vos, em verdade, que esta geração não passará sem que todas estas coisas se tenham cumprido."
    Não temos visto a forma do texto biblíco ser contraditada pela Ciência no que se refere à Criação e ao movimento da Terra? Não pode ocorrer o mesmo com certas figuras empregadas pelo Cristo, que devia falar de acordo com o tempo e os lugares? O Cristo não poderia dizer conscientemente, uma coisa falsa. Assim, pois, se em suas palavras há coisas que parecem chocar a razão, é porque não as compreendemos ou as interpretamos mal.
    Os anjos fizeram com os demônios o mesmo que fizeram com os anjos; da mesma forma que acreditaram em seres perfeitos de toda a eternidade, tomaram os Espíritos Inferiores por seres perpetuamente maus.   Pela palavra demônio deve-se entender, pois, os espíritos impuros que, frequentemente não valem mais do que as entidades designadas por esse nome, mas, com a diferença que seu estado é transitório. São os espíritos imperfeitos que murmuraram contra as provas que devem suportar, e que, por isso, suportam-nas por mais tempo; chegarão, porém, por seu turno, a sair deste estado quando quiserem. Poder-se-ia aceitar a palavra demônio com esta restrição. Mas, como é entendida num sentido exclusivo, poderia induzir ao erro fazendo crer na existência de seres especiais, criados para o mal.
    Com relação a satanás, é evidente a personificação do mal sob uma forma alegórica, pois não se poderia admitir um ser mau, a lutar de potência a potência, com a divindade e cuja única preocupação seria a de contrariar os seus desígnios. Precisando o homem de figuras e imagens para impressionar a sua imaginação, ele pintou os seres incorpóreos sob uma forma material, com atributos lembrando as suas qualidades e defeitos. É assim que os antigos, querendo personificar o tempo, pintaram-no na figura de um ancião portando uma foice e uma ampulheta, a figura de um homem jovem seria um contra-senso.
   As mesmas coisas se verifica com as alegorias da fortuna, da verdade, etc.
     Modernamente, os anjos ou espíritos puros, são representados por uma figura radiosa, com asas brancas, símbolo da pureza; Satanás com dois chifres, garras e os atributos da animalidade, emblemas das paixões inferiores. O vulgo, que toma as coisas pela letra, viu nesses emblemas um indivíduo real, como outrora vira Saturno na alegoria do tempo.

O Livro Dos Espíritos, de Allan Kardec; Livro Segundo - Mundo espírita ou dos espíritos- capítulo primeiro, Dos espíritos, Anjos e Demônios, páginas 86 a 88.

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